O GOYA GOIA (EM CUBA)

O GOYA GOIA ..

Ano de 2007....

Um colecionador de arte, muito conhecido e muiiiiito famoso, entrou em contato comigo para uma conversa sobre uma perícia técnica que eu teria que fazer em um quadro de pintor europeu. Muito normal até aí, pois compradores conscientes sempre tomam esse tipo de atitude quando vão comprar algum quadro ou alguma obra de arte, para não ter a triste noticia que foi enganado quando precisar vende-la ou então ter que ouvir, lá do além, os xingamentos dos herdeiros.

Bom, o caso é que esse colecionador já tinha adiantado aos proprietários da obra o valor de U$ 40.000,00 apenas pela preferência de compra e direito de realizar a perícia por alguém de sua confiança. Combinamos meu honorários, prazos e tipo de certificado que eu emitiria e, depois de tudo acertado, ele propôs dobrar o valor que eu havia pedido. Surpresa né? Claro que tinha coisa...  o quadro estava em Cuba, país sabidamente severo no tocante a compra e retirada da ilha de bens não turísticos, além do risco da atuação de um profissional não autorizado pelo governo local na qualidade de perito. Porém, a atribuição da autoria, era simplesmente de Francisco Goya, meu cliente pagaria pelo quadro U$ 8.000.000,00 e o deveria revender por mínimos R$ 20.000.000,00 na Europa. A parte mais complicada seria retira-lo de Cuba, por esse motivo que os proprietários se sujeitavam a vende-lo por valor tão aquém do original, mas para isso, meu cliente tinha seus contatos. O valor de meus honorários, logicamente cresceram muito em relação a essas quantias, ao tamanho da responsabilidade e principalmente ao risco que eu me exporia diante do fato que eu faria parte integrante desse esquema.

Embarquei com destino a Cuba com escala no Panamá, com a bagagem atulhada de toda uma parafernália de lâmpadas, produtos químicos de teste, ferramentas, equipamentos eletrônicos de teste e todo o apoio simples, que certamente eu não encontraria na ilha para comprar. Até mesmo algodão eu levei daqui do Brasil. Já no avião, fui morrendo de medo de ser pego com tudo isso, poderia ser facilmente comparado a um terrorista visto que o que eu levava, não teria o menor sentido um turista carregar, e em hipótese alguma, poderia contar meu real objetivo da viagem, com o risco de ficar preso em Cuba. Quando cheguei, hospedei-me em um hotel de categoria européia, como constava em meu contrato de trabalho, e, na manha seguinte, não sabendo o que me esperava, fui chamado à recepção por dois senhores cubanos que se identificaram como representantes do proprietário do quadro, e que me levariam ao local da perícia. Me apresentaram uma perícia autenticada de 1.988, feita por um marchand espanhol, atestando a autenticidade do quadro, perícia essa que parecia ser válida, bem detalhada, descrevendo exclusivamente a capa pictórica, ou seja os méritos e deméritos da pintura sem que fosse investigado o conjunto da obra.

O carro com que vieram me buscar era um Chevrolet 55, um caco! Não sei como aquilo ainda andava, parecia carro de filme de final dos tempos. Mas conseguimos chegar. Era em um lugar horrível, parecia cativeiro de sequestrador, entramos por essa coisa, passamos por diversos corredores entramos em outras casas, tudo como se fosse um labirinto, O que logo notei ser, por precaução. Finalmente entramos em uma sala pequena, e lá estava o quadro, coberto com uma pano. Um quadro grande, de 1,86cm X 1,12cm com uma pintura linda.. linda mesmo! O quadro era "Agustina de Aragon na Batalha de Zaragoza" atribuído à Francisco José de Goya y Lucientes, nascido em Fuendetodos Zaragosa Espanha em 30 de Março de 1.746 e morto em Bordeaux, França em 15 de Abril de 1.828.  O histórico, parte muito importante da identificação, era perfeito. O quadro era de uma família notável espanhola residente na ilha que teve quase tudo confiscado pela revolução, salvando poucas peças de arte, entre elas o Goya. Falei com um dos familiares que confirmou a história e disse que o quadro havia sido adquirido pelo seu bisavô em Madrid e que tinha o recibo de compra de confiável galeria da época.


Comecei a perícia técnica,utilizando o recurso da luz ultra violeta, da infra-red, de testes químicos de dureza, testes de pigmentos, de idade, analises do tecido, da trama da tela, da aglutinação do pigmento, das cores que eram características da época, enfim usei todos os meios que me eram disponíveis ali naquele cômodo. Quando parti para a identificação visual, vi as marcas características de idade da trama da tela, notei que a tinta possuía o craquelado peculiar à data, assim como a sujeira e o verniz desgastado e talhado. Porém, notei que a tela havia sido pregada apenas uma vez ao chassi, visto que não possuía reentelagem parcial nem marcas de reforço para que tenha sido esticada. O chassi por sua vez, era relativamente novo, sendo que atribuo sua manufatura aos anos 70. Certamente o quadro poderia estar enrolado esse tempo todo, e por isso não tinha marcas de outros chassi, nem marcas que conferissem ao quadro que já estivesse sido fixado a alguma moldura. A idade determinada da tela, foi através de analises na frente e no verso, mas observando melhor, notei que as manchas de umidade, com aspecto de serem muito antigas, e a sujeira dos tempos, não continuavam sob o chassi; sob a madeira do chassi, encontrei um tecido limpo, sem marcas nem manchas, sem nada e nenhum motivo para que eu pudesse atribuir uma idade superior a 40 anos. Também notei que a resistência do tecido era ótima, não apresentando a flacidez e decomposição peculiar a idade de 300 anos de pseudo manufatura. Hora.. se o conjunto da obra (pintura + chassi) foram feitas por um pintor que viveu durante os séculos XVIII e XIX, como podia as evidências mostrar que a tela eram da segunda metade do século XX? Conclusão.. o quadro era uma falsificação!! Muito bem feita, mas completamente fake!

  Quando os senhores que me acompanhavam me questionaram qual era minha opinião sobre o quadro, minha resposta foi.... - Perfeito! maravilhoso... nunca vi um quadro assim! (e nunca tinha visto mesmo...rs

Depois dessa conclusão, tive que conviver com meus anfitriões por mais três dias, que de acordo com o contrato era o tempo estimado para a finalização da perícia. Quando se deduz que o quadro é falso, a perícia termina nesse momento, já que depois de constatado o fato, nada acontecerá para que essa conclusão técnica seja revertida, mas naquela hora e naquele lugar, eu não iria deixar isso evidente de modo algum.

Embarquei de volta ao Brasil, temendo ser abordado pela polícia todos os minutos, mas tranqüilo de ter colhido provas suficientes para a minha definição.

Meu contratante, ao contrário do que se possa imaginar, ficou feliz, não por gastar os U$ 40.000,00 mais meus custos e honorários, mas por deixar de perder os oito milhões que custariam caso tivesse adquirido a falsificação.

Pois é, o Goya de Cuba, finalmente virou Goia!

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